Sexta-feira, Maio 23, 2008

A boa mesa de sempre


Na mesa fazendo hora. Todos ali haviam se empanturrado de tanta comilança. De repente alguém resolve pisar no terreno pantanoso da idade. E arrasta todos que estavam em volta da mesa do jantar.
- Vocês perceberam como estão cada vez mais fofinhos?
- Você também não está tudo isso pra falar assim.
- Não. Eu digo todos nós. Estou me incluindo nessa, sim.
- No nosso tempo de faculdade eu era bem mais magrinha.
- Pois é claro! Lembra que você andava de bicicleta todos os dias?
- Nossa que será que aconteceu?
- Com você?
- Não com a minha bicicleta. Eu lembro que paguei uma pequena fortuna nela e hoje ela virou um objeto fazedor de sombra lá no fundo da garagem. Nunca gostei de falar disso, mas dias atrás vi que estava “crescendo”. Quando estava brincando com meu filho, sentado montando um trenzinho, minha barriga insistia em me empurrar para trás, e quanto mais eu lutava com ela mais eu perdia o equilíbrio. Que vergonha! Lembro que há algum tempo atrás eu mal lembrava que ela existia...
- Sua bicicleta?
- Não! Minha barriga.
- E eu que não lembro mais como são meus joelhos. Dias atrás eu quase escrevi uma carta pra saber como eles estavam.
- E tem alguma outra coisa que você não vê faz tempo?
- Tem sim. Você ganhar no futebol de mim.
- Você sabe que nunca fui muito bom em futebol de botão.
Todos riem.
- E vocês mulheres até que não mudaram tanto assim, com exceção da Clara.
- Ah! Mas mudar de casa não vale. A amiga completa.
- Na boa pessoal, eu não tinha essas marquinhas no canto dos olhos, estou apavorada!
- Impossível! Você está linda.
- Ah! Mas eu já dei um jeito nisso. Passei na farmácia e comprei um anti-rugas! É tiro e queda.
- Faz até de conta que você precisa destas coisas.
Agora é a vez do outro amigo se manifestar:
- Pior estou eu, gordo míope e careca., Tenho até lapsos de memória! . Cada dia minha barriga me afasta mais da mesa.
- Ué amor, resolveu fazer regime e não me disse nada? A esposa espantada.
- Não. Quanto mais ela cresce mais eu tenho que sentar afastado da mesa.
- Ah, mas isso é sinal de riqueza. Você já viu um pobre careca e gordo?
- É verdade, nunca vi mesmo. Mas toda regra tem sua exceção.
- Cibele que estava calada resolve intervir:
- É pessoal todo mundo envelheceu aqui, o tempo foi implacável e cruel com todos, não adianta!
- É verdade. Todos esses anos de encontros gastronômicos provocaram algumas mudanças em nossas circunferências, mas afinal de contas a amizade continua a mesma.
Jezebel em tom de fechar a conta:
- Tô contigo e não abro! Desde esse tempo nós desenvolvemos um paladar mais apurado, e o nosso jantar estava divino.Até a sobremesa hiper-calórica estava maravilhosa!
Todos concordam. Alguém suspira e ouvimos quase que em tom de confissão:
- Ainda bem que a coca-cola era light.

* Sampaio

Quarta-feira, Maio 21, 2008

Próxima estação...

Um abraço
é só
um abraço
até que
vire saudade,
até que
vire tormento.
Sônia Wolff

Segunda-feira, Maio 19, 2008

Geladeiras e séquiço ( Bis )


Sempre desejei ter uma geladeira daquelas "antigonas arredondadas." Especificamente vermelha. E com Um pingüim de porcelana em cima. Até já imaginei cenas de séquiço selvagem encostado nela. Confesso que os anos se passaram... Hoje meu sonho está realizado. Tenho uma "geladeira antigona arredondada vermelha" e com um pingüim de porcelana em cima. E vergonhosamente eu morro de medo dela! Cada vez que eu chego perto eu me lembro de quando eu tinha oito anos de idade. Eu não pensava em fazer séquiço selvagem encostado numa geladeira vermelha com oito anos de idade. O que aconteceu foi que no dia do meu aniversário de oito anos minha mãe fez uma porção de brigadeiros e docinhos e eu pedi apenas um para ela:
Mãe me dá um brigadeiro? só unzinho?
Não. É para sua festa de aniversário! Você deve esperar.
Quem disse que eu agüentava esperar? Quando minha mãe saiu de perto fui lá de metido e...quando abro a geladeira fico grudado no trinco! Tamanho choque que eu levei.
Senti as bolinhas dos olhos saltarem e meu coração dar um coice em tudo que tinha ali à sua volta.(sou chique sei falar difícil). Mas não desisti eu queria um brigadeiro.
E novamente pela segunda vez lá estava eu. Grudado naquele maldito trinco.
Após algumas tentativas penso: vou usar um cabo de vassoura.
Putz! Grudei de novo! Arrepiou até os cabelinhos do braço! (eu disse cabelinho do braço! Eu tinha apenas oito anos).
Meu irmão mais velho que assistia a tudo me disse:
- Cara você leva choque porque está descalço! Use um chinelo para abrir a geladeira.
Outro choque!!
- Não bestinha você tem que estar com os pés secos e com um chinelo ou um calçado de borracha nos "pés" não no bolso.
Ahhh! Entendi! ...E quando eu consigo abrir a geladeira minha mãe se aproxima e diz:
humm já está um homenzinho. Vai até ajudar a mamãe a servir os convidados.
Começou e acabou minha festa, não consegui experimentar um único docinho por causa daquela maldita geladeira que devia ter um pacto com a minha mãe.
Os anos se passaram... E hoje ou especificamente há alguns dias conheci uma garota linda e que se encantou pela minha "geladeira antigona arredondada e vermelha". Ela quis fazer séquiço selvagem comigo encostada na “geladeira antigona arredondada vermelha”. Estava lá nós três, eu ela e a geladeira. Tudo pronto...
Em questão de segundos escuto eu mesmo com oito anos de idade falando pra mim:
Vai levar choque idiota!
Olho Para a garota que adorou minha “geladeira antigona arredondada vermelha e com um pingüim de porcelana em cima” e digo:
Sabe. Acho melhor... Sabe o que é...nessas geladeiras não se pode confiar! Você não prefere fazer séquiço numa pilha de papel sulfite só de chinelos havaianas?

*Sampaio